A caminhada

Se nos recordarmos de cada caminhada feita ao longo da vida, penso que, quase sempre, conseguimos associar-lhe uma banda sonora. A música que vai ficar associada à caminhada de ontem, vai ser, de forma incontornável, “Save your tears” na versão dos The Weeknd.

Fomos com a equipa Flower People X fazer parte do percurso de corrida que vai integrar a Paddle Battle, de 25 de setembro de 2021: 20 Km nas margens do Tua, que nos fizeram querer desfazer-nos em lágrimas, tanto de sofrimento como de deslumbre…mas fomos sempre tentando deixar as lágrimas para outro dia.

Começamos a caminhada em frente ao Calça Curta e seguimos cerca de um 1K junto ao rio, que descansava, descontraído e fresco, sob um imenso painel de oliveiras e ciprestes muito verdes, distribuídos aos quadrados como uma parede de azulejos. Do fim do km 1 até Castanheiro, no Km 7, a caminhada foi sempre a subir sob um sol impiedoso. Começamos da parte da tarde, mas o calor ainda era avassalador. Subimos por um caminho florestal rasgado em escarpas íngremes emolduradas em socalcos de vinhas tradicionais. Á nossa volta, colossos montanhosos, desenhavam curvas de alcatifa até ao leito do rio, ora mais direito, ora mais sinuosos que, porém, não transmitia qualquer sensação de fresco: não corria uma brisa, não existia uma sombra, o calor enterrava-se nas entranhas como areia fina da praia.

Até chegarmos a Castanheiro, caminhamos 6 Km, sempre a subir, amparados por raros tanques e fontanários e fartas copas de pêssegos e figos maduros, o Pascal a comentar que só queria conhecer Portugal, não queria morrer aqui. Castanheiro poderá ter sido noutra vida, espaço de templos e fartura, que é possível adivinhar pelos restos de edifícios de granito com traçado nobre.

Abastecemos na fonte e seguimos, ligeiros, até ao Miradouro “Olhos do Tua”, num percurso, finalmente, a descer. A vista, semelhante à que já conhecíamos do Miradouro do Ujo, não sendo completamente nova, não deixou de ser surpreendente: aqueles painéis gigantes de zimbros, sobreiros e pinheiros esculpidos nos vales que que erguem das águas azul-safira, como ilhas, são assombrosos.

Do Miradoruro, seguimos até Tralhariz, sempre envolvidos por curvas gigantes, muito ordenadas de diferentes tons de verde. Já passava das 18 H quando recebi uma chamada de trabalho que me deixou completamente desmoralizada e derrotada. Em meu socorro veio uma brisa que varreu a vegetação rasteira para deixar a descoberto as curvas das encostas de videiras e oliveiras, encarreiradas até às bordas do rio.  

Porém, eu já não prestava atenção a nada. Para me confortar, a Lurdes recordou-me de que, há 4 anos, quando nos conhecemos, eu estava precisamente na mesma situação e consegui dar a volta. Mas essa recordação abalou-me como uma faca cravada nas costelas: 4 anos volvidos, tinha dado a volta e estava precisamente no mesmo lugar…a música agora era “O ciclo de Feras” dos Xutos e Pontapés e senti tal e qual “Nunca dei um passo/Que fosse o correto/Eu nunca fiz nada/Que batesse certo”. Segui a caminhada, introspetiva e indiferente, até chegarmos a Tralhariz. Ai chegados, um cortejo de paralelepípedo de granito levou-nos por entre vilas de moradias com vida, janelas vestidas de cortinas engomadas, pátios de amêndoas a secar ao sol e famílias nas varandas.

Num armazém que passou despercebido a alguns dos nossos olhos, o Carlos vislumbrou uma mesa corrida com bancos e arcas frigoríficas e adivinhou existir ali uma taberna improvisada. Já ia eu e os restantes a chegar ao centro da aldeia, quando demos conta de que o Carlos e o Zé tinham ficado para trás e, em minutos, apanharam-nos carregados com latas de coca-cola fresca e senti, em todas as partes do corpo, o significado da expressão “A última coca-cola do deserto”.

Banhados de açúcar e envolvidos por um pôr do sol tão discreto quanto magnânimo, seguimos, renovados, até à partida. A Luli tem um lema, que é, de resto, o espírito da Flower People X “Comemore a vida: a energia contagia”. Naquele momento, não me sentia capaz de celebrações. Porém, envolvida pelos tons de laranja que desciam sobre os picos das encostas, as curvas do rio a transformar-se de verde-garrafa para azul-marinho, a Lurdes a cantar música portuguesa para o Pascal que não compreendia sequer em que idioma estava a ouvir, o Paulo a carregar a Ester que já não se aguentava das patas, senti-me consciente de que não há boa ou má sorte: há escolhas, decisões, mesmo que inconscientes, mesmo que com consequências imponderáveis, há escolhas e só eu sou responsável pelas minhas. E, no momento, tinha o poder de escolher usufruir do caminho, ou deixar-me engolir por frustração e arrependimentos. Optei pela primeira e, usufrui como pude, até chegarmos, de novo ao Calça Curta, onde fomos (incluindo a Ester) muitíssimo bem tratados e acarinhados.

Foi uma caminhada dolorosamente magnífica, cruelmente deslumbrante, como tantas outras, na vida, com incertezas e revezes e muita vontade de parar e voltar atrás, mas a certeza de que vale a pena não desistir: e valeu!

Ana