Um Domingo Normal

Este Domingo, foi normal. Fizemos um treino na Serra de Valongo, como em tantos outros fins-de-semana, porém, ao contrário de outros Domingos, arriscamos caminhos diferentes. Afinal, se fizermos sempre o que os outros fazem e só seguirmos caminhos marcados, dificilmente chegamos a lugares inesperados! Em vez de começarmos no Parque da Cidade de Valongo, subimos às ruínas do Sanatório de Mont’Alto a partir de Fânzeres por um trilho que não imaginei que existisse.

O trilho fez-se a trepar pelos típicos degraus toscos de xisto, em vários tons de cinza, ao abrigo de eucaliptos, pinheiros-bravos e fetos arbóreos, muito viçosos, com recortes perfeitos.

Junto ao sanatório, paramos para absorver a vista infinita sobre o Porto e Gondomar e tentar descortinar a geometria do Monte Crasto engolida por gigantes flocos de algodão.

Daí, descemos até apanhar o Trilho do Paleozóico, por um mundo de pequenas surpresas: inúmeras cavidades de exploração mineira da época romana designadas de “Fojos”.

Os fojos são poços verticais profundos com galerias que chegam a atingir algumas centenas de metros de extensão e que, outrora resultantes das antigas minas de exploração de ouro são, hoje, morada de uma fauna abundante e diversificada. Descobrir os fojos foi como entrar na Valsa dos Contos dos Bosques, de Viena, embora com compassos incertos e desconfiados, que a profundidade dos poços, suscita tanto espanto quanto temor. De difícil entrada e parcialmente obstruídos por vegetação, aproximamo-nos com cautela e deixamo-nos deslumbrar pelas pequenas nascentes e linhas de água e pelas sinfonias de fetos com folhagem muito bem recortada, verde avermelhada.

Ao aproximar-nos dos poços, sentimos a vertigem, ouvimos o apelo da água e, como tantas vezes na vida, temos a tentação de nos atirar, um peso morto de encontro ao abismo, a tentar encontrar algum ponto de apoio, para não cair, sem amparo, no chão. Felizmente, nenhum de nós caiu.

Descomplicada, a Ester aproveitou para se refrescar e descansar, à sombra. Continuamos pelo PR3, o Trilho do Paleozóico, e regressamos ao ponto de partida, diretos para a mesa, almoçar.

Foi um almoço simples, em que conversamos sobre assuntos corriqueiros, numa normalidade deliciosamente confortável. Foi um Domingo normal, em que fui só mais uma de três pares de pessoas comuns. Pode ser profundamente inspirador conhecer pessoas extraordinárias que conseguem feitos incríveis. Mas acaba por ser mais transformador, conviver com pessoas como nós, que calçam os nossos sapatos, que também lhes causam dores como a nós, mas que somente não fazem um drama dos apertos dos seus sapatos e tentam viver a vida o melhor possível. É, de resto, um aspeto que preciso de melhorar, o de não viver tão sufocada pelo aperto dos meus sapatos e tentar viver os Domingos com os cordões desapertados. Podemos mudar de casa, de cidade, de trabalho, podemos mudar tudo à nossa volta, que vai tudo continuar na mesma, se não mudarmos a nossa forma de estar e ser. As dores não vão passar por me dedicar a pensar nelas pelo que tenho que me preocupar menos com os sapatos e concentrar-me mais na rotina boa de um Domingo normal.

Ana