A Quintinha

A Quintinha: manifesto a favor da zona de conforto

Foi na Quintinha D’Arga que passamos a viragem do ano. Confinados às bordas de um Concelho e à imposição de recolher obrigatório, trocámos o desconforto do silêncio e das cadeiras vazias pelo abraço que já festejou connosco aniversários e nos acolheu na morte de um ente querido. Trocamos as filas da mercearia e as receitas gastas de Natal, pelos petiscos do Carlos e as mesas postas pelo Zé Carlos e pela Flor, donos deste que é, um dos nossos alojamentos e refúgios preferidos.

Antes da meia-noite, já tínhamos firmado amizade com o Paulo e a Sandra da “Precioza Bijou“, devorado iguarias soberbas confecionadas com produtos regionais e trocado as letras de, pelo menos, oito músicas cantadas pelo João. As doze badaladas foram ouvidas no terraço, no colo de uma noite amena e no desejo de um 2021 com mais conforto.

No primeiro dia do ano, fomos fazer um trilho emprestado pela nossa Daniela, com início e fim na Montaria, a poucos kms da Quintinha. A começar nas Cascatas da Ferida Má, o percurso de 19 Km prometia levar-nos do Parque de Merendas do antigo viveiro florestal junto ao Rio Âncora, até às eólicas a 800 metros de altitude.

Os primeiros 3 Kms foram feitos a trepar lajes muito firmes, embrulhadas em cobertores de musgo fresco, erguidos de torrentes de folhagem de outono, cravadas no colo de fileiras de amieiros e carvalhos cujos troncos foram os nossos bastões. Foram 3 Km de quedas de água a descer velozes à nossa direita, num leito de rochas e bosques abrigados por copas de pinheiros e amieiros, despenteadas.  Foram 3 Km lentos de um desconforto delicioso, de esgar de dor nos joelhos a bater nas lajes, tornozelos entalados e gotas espessas a descer pelas costas, por baixo de impermeáveis à espera da chuva, que caiu à hora marcada.

Do Km 3 ao 7, o percurso fez-se de trilhos rochosos, agasalhados por vegetação rasteira de vários tons de verde e castanho, a desvendar a fisionomia imponente da Serra D’Arga. Foram Km’s de pés mergulhados em torrentes de água a rolar pelos trilhos de pedra abaixo, de sapatilhas enterradas em lama, de vento a cortar a pele como facas e a entranhar-se até aos ossos.

À nossa volta, um colosso rochoso com erupções de granito e xisto de várias formas e tamanhos e declives de pinheiros e eucaliptos. Atingimos as eólicas ao km 7, abraçados por um maciço montanhoso de perder de vista e faltavam somente 12 km para terminar o percurso.

Porém, a chuva começou a cair, regular, e o frio a penetrar os equipamentos. Decidimos regressar à partida com o conforto de já conhecermos o trajeto de retorno. O Caminho de regresso foi, em parte, chuvoso, escorregadio, com rabos a bater várias vezes no chão.

Contudo, para mim, desconforto não são os lábios gretados pelo rigor do vento, a falta de sensibilidade nos dedos, as meias encharcadas a boiar dentro das sapatilhas. Sair da zona de conforto não é subir a serra com os pés enterrados em lama, ou ouvidos a gemer de dor, as silvas a rasgar a pele.

Desconforto é ficar sem trabalho, é não ter comida para pôr na mesa, é não poder pagar uma consulta médica ou perder um amigo. Sair da zona de conforto é começar do zero, é suportar humilhações de hierarquias ineptas para poder pagar a casa, é deixar de comer para comprar uns sapatos a um filho, ou carregar o caixão de um pai e manter a cabeça erguida, sem revoltas nem queixumes.

Por isso manifesto-me por mais horas passadas na zona do conforto de ter a quem recorrer, de ter os pais a poucos km’s de casa e amigos à distância de um botão. De subir a serra entre frações de chuva e raios de sol e regressar ao abraço dos outros hóspedes, entretanto amigos, e ao aroma de um arroz doce e um copo de vinho do porto. Por mais horas de chapinhar nas poças, de caminhadas sem pressa, de horas passadas no conforto do sofá da Quintinha D’Arga, à lareira, a comer tapas e a beber vinho quente.

Ana